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quinta-feira, 11 de julho de 2013

O problema da autoridade



Figura 1: A questão da autoridade - Matrix (1999)


Nesta cena Neo está diante do dono da empresa onde trabalha. Ele foi chamado pelo empresário porque tinha um problema de autoridade, que se relacionava ao fato de ele chegar atrasado no local de trabalho.
No diálogo, o empresário se dirige a Neo para afirmar que ele tem um problema com autoridade. Ele continua dizendo




Esta é uma das maiores empresas de software do mundo... porque cada funcionário entende que faz parte de um todo. Logo, se um funcionário tem problema, a empresa tem problema. Chegou a hora de fazer uma escolha, Sr. Anderson. Ou você escolhe estar na sua mesa no horário a partir de hoje... ou você escolhe achar outro emprego. Eu fui claro? (Matrix, 1999)





Estamos desde o início defendendo a ideia de que a língua e a linguagem são instância de controle do pensamento, conforme a hipótese Sapir-Whorf. Considerando as diversas linguagens e as diversas variantes da língua, impõe concluir que para o domínio do pensamento, é escolhida somente uma linguagem e uma variante como detentora da ideologia dominante. Em Matrix (1999) esse controle e policiamento social aparece nessa cena. No caso da linguística, os estudos sobre linguagem se concentram mais no fenômeno da fala (Votre, 2003), mas na escola há uma superioridade da linguagem verbal escrita e da variante linguística da classe dominante tem sido mantida por diversos mecanismos. Um deles é também através da autoridade. Votre (2003), em Relevância da variável escolaridade, faz um estudo sobre o prestígio social das construções frasais e vocabulares prescritas pela norma e sua relação de poder com as variantes estigmatizadas. O autor afirma que “há consenso em que o professor de língua materna é o profissional da linguagem encarregado de prescrever e controlar o domínio da norma, nas atividades de produção de texto e retextualização” (Votre, 2003: 52). A cena descrita em Matrix refere-se a padrões sociais, mas nos permite falar em padrões linguísticos, onde o professor aparece como peça fundamental na manutenção do sistema de controle da norma vigente. Ao manter a linguagem sob controle, quer o professor (consciente ou não) manter o controle da forma de pensar, afinal de contas ao defender o prestígio de determinada forma o professor está reforçando a ideia de que outras formas são inferiores e por isso indignas de serem utilizadas. Assim como o atraso de Neo devia ser punido com a demissão, “os erros são concebidos como males que devem ser extirpados da comunidade discursiva” (Votre, 2003). A escola, segundo o autor se põe na mesma linha do professor valorizando formas de prestígio. Ela é o ambiente que abriga a gramática prescritiva no sentido de perpetuar a aquisição das formas de prestígio e erradicar as formas sem prestígio. O autor nos alerta que o “ensino descritivo naturaliza como boas as formas de prestígio e as descreve em detalhes e circunstância, deixando no limbo as características estruturais das formas a serem evitadas (Votre, 2003).


Está bem clara aqui a ideia de silenciamento e de monopólio linguístico, aparentemente pretendido pela gramática normativa. Em uma cena de Matrix (1999) essa relação de autoridade e controle para a dominação de somente uma ideologia aparece muito forte.

Figura 2: Silenciamento - Matrix (1999)

Nesta cena, Neo é interrogado por Agentes sobre seu conhecimento a respeito de Morfeu, mostrando rebelde e indiferente ao controle e autoridade dos mesmos. No diálogo, o Agente diz a respeito de Morfeu

Ele é considerado pelas autoridades... como o homem mais perigoso que existe. Os meus colegas... acham que estou perdendo o meu tempo com você. Mas acho que você deseja fazer a coisa certa. Nós queremos apagar tudo isto... te dar um novo começo. Tudo que pedimos em troca para levar um conhecido terrorista à Justiça (Matrix, 1999).

Se utilizarmos esse diálogo como alegoria para a relação entre professor e aluno, a discussão será proveitosa. Veja que a noção de silenciamento do diferente, do não normativo, do não padrão aparece em “nós queremos apagar tudo isto... te dar um novo começo”, que pode ser utilizada para se referir ao conhecimento prévio que o aluno tem da linguagem e seu uso. Votre (2003) fala em estigma, termo utilizado também para se referir à crucificação de Jesus Cristo como subversivo, uma espécie de terrorista intelectual, comparado com Barrabás. O Agente convida Neo a entregar Morfeu, como o professor convida o aluno a se separar de sua variante linguística natural.


Numa atitude consciente, Neo usa a ironia para responder

Sim. Parece um trato muito bom. Mas acho que tenho um melhor. Que tal...

eu te mostrar o dedo... e você me dar o meu telefonema? (Matrix, 1999).

A rebeldia de alguns falantes em continuar utilizando sua variante linguística natural e de resistir provoca reações das mais variadas nos professores, mas a mais comum é punir, tal qual faz o Agente. Neo reclama o seu direito a um telefonema e o Agente diz

de que adianta um telefonema... se você não consegue falar? Você vai nos ajudar,Sr. Anderson... quer você queira... ou não (Matrix, 1999).

Comportamento linguístico: um reflexo social?


Por se tratar de um filme de ficção científica, Matrix, traz muitas questões latentes, passíveis de análises pelo viés das teorias da linguagem, referentes ao âmbito da linguística, bem como por aspectos sociais. Um ponto a ser destacado vislumbra o aspecto social, mais especificamente quando se refere à comunidade e prática, em que o protagonista do filme, Thomas Anderson, apelidado de Neo, que além de ser programador de computadores é um hacker que se refere a um programador que invade e sabota sistemas alheios ilegalmente. Assim, possui uma vida cotidiana aparentemente normal, mesmo se tratando de uma função com manuseio de computadores de forma ilícita com fins lucrativos.
No entanto, nota-se uma quebra na linearidade comportamental, quando o mesmo é abordado por uma estranha, a Trinity, que o deixa confuso com um enigma, “siga o coelho branco” e o leva até Morpheus, que acredita ter o destino diferente preparado para Neo enfrentar instruindo-lhe de como deveria seguir. Portanto, Neo, é posto em outro ambiente, exercendo outras funções este, as absorve e modifica, não somente seu comportamento frente à realidade distinta que se encontrava como também a sua linguagem, incluindo o uso de roupas e a maneira de agir. Tal postura pode ser justificada pela abordagem realizada pelo funcionalismo, o qual pretende descrever a linguagem não como um fim em si mesma, mas como requisito pragmático da interação verbal. Percebe-se, portanto, uma nítida relação entre linguagem e uso em seu contexto social. É possível verificar que a cada ambiente em que é submetido, o ser age de forma distinta, para que atenda a demanda que o impulsiona.
Tais perspectivas comportamentais de Neo são notórias, enquanto sujeito comum na função de programador de computadores e hacker vestia-se casualmente. Mas, após a mudança de ambiente na qual ele muda de realidade e de postura social, quando ele passa a internalizar a ideia de ser “o escolhido”, muda radicalmente, suas roupas passam ser mais formais, seu modo de ver as coisas ao seu redor, o ar de superioridade é nítido, enfim, todos esses pontos sociais de alguém que passou ser um “superior”.

Aspectos Culturais atravessando Questões Comportamentais



No presente trabalho o fato a ser focalizado aqui é o comportamento social fortemente marcado pelo aspecto cultural e da linguagem. Como se pode citar a dupla personalidade adotada por Neo. De início, ele era um ser que assumia suas funções sociais corriqueiras. Mas, a partir do momento que ele incorpora a função de escolhido ele age diferentemente e faz por onde merecer tal nomenclatura comportamental. Tal posicionamento do personagem pode ser justificado pelo contexto social, que estava sendo submetido, ou seja, cada contexto inserido exige do sujeito imerso uma postura que adeque-se às suas exigências sociais, culturais.  E é essa perspectiva que William Labov destaca “a estrutura e evolução da língua dentro do contexto social da comunidade de fala”. Ele aborda que para analisar a língua faz-se necessário considerar os dados de fala cotidiano realizado em seus contextos sociais.
No momento em que Neo adentra no mundo imposto pela Matrix, um programa de computador que simula uma realidade virtual, ele é considerado o controle, pois como é exposto no filme, os sujeitos sociais são capazes de controlar o mundo, por serem sujeitos ativos no processo interacional, busca-se mudança. É característica dos ser humano procurar mudar, adequar-se ao novo, ele não é um ser estático no mundo, é passível de alterações, seja no modo de viver, seja na maneira de pensar, de adaptar-se.
Os referidos posicionamentos permitem fazer um diálogo com o que a teoria da sociolinguística propõe no tocante as relações entre língua e sociedade, bem como às influências culturais na conduta do ser humano. Pois, o mesmo, pretende um estudo voltado ao uso da língua no meio da comunidade investigando aspectos linguísticos e sociais.