quinta-feira, 11 de julho de 2013

Cypher




Cypher, interpretado pelo ator Joe Pantoliano, é um membro da equipe de Morfeu que, cansado da luta entre homens e máquinas, revela estar cansado de viver no mundo real e quer voltar a viver no mundo ilusório das máquinas. Cypher conhece a verdade das coisas, mas acha o fardo de lutar contra o sistema de controle muito pesado para ele. Ele chega a se perguntar: “por que não tomei a pílula azul?”. O conhecimento e engajamento em busca da verdade estão simbolizados em duas pílulas oferecidas por Morfeu. A pílula vermelha significa conhecer a verdade e se engajar na mudança social. A ignorância ou indiferença com a verdade e o alinhamento com o sistema de controle está simbolizada numa pílula azul. Neo e todos os membros da equipe de Morfeu tomaram a pílula vermelha. Enquanto alegoria, podemos analisar essas cores por diversas perspectivas. Na relação político-partidária, o azul é a direita e o vermelho, a esquerda. O azul é capitalismo, o vermelho, marxismo. Na ação docente o azul significa o certo, o que está dentro do esperado, o que é bom; o vermelho simboliza o errado, o que está fora do padrão, o que tem que ser melhorado, o que está abaixo.
 Sob a promessa de uma vida de regalias na Matrix, Cypher decide sabotar sua equipe e entregar Morfeu aos agentes da Matrix. A presença de Cypher na trama do filme faz emergir discussões sobre o papel do professor. Muitos professores sabem de seu papel como seres políticos, com agentes de mudança. Muitos (para não dizer todos) sabem que ensinar somente a gramática não é suficiente para uma transformação social. Mesmo assim, preferem a comodidade de limitar sua atuação docente ao trivial. Por vezes, até se opõem a qualquer um que tente ir de encontro a esse estado de coisas.





Um conceito de linguagem para entrar na Matrix




Para Sapir (1929: 8), “a linguagem é um método puramente humano e não instintivo de se comunicarem ideias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos”. Lyons (1981) objeta essa definição, defendendo que ela é imprecisa, uma vez que não está clara o que vem a ser ideia e muito do que é comunicado na língua não pode ser definido nem como emoção nem como desejo.

No entanto, é inegável a propriedade da linguagem humana de expressar as emoções e os desejos. No caso, da discussão que estamos desenvolvendo, o fato de estarmos conscientes de que a linguagem serve a esses propósitos faz toda diferença, pois se acreditamos que a linguagem determina o pensamento, conforme a hipótese Sapir-Whorf de que a linguagem determina o pensamento. Considerando que a linguagem determina o pensamento, vamos concluir que nossas emoções e desejos também são determinados pela linguagem. A lógica desse raciocínio nos permite dizer, então, que nossas emoções e desejos também estão sob controle.

Para Sapir (1947)


“nós estamos em todo o nosso pensamento e para sempre, “a mercê da língua determinada que se tornou o meio de expressão para a sociedade”, por que só podemos “ver e ouvir e experimentar de outras formas” em termos das categorias e distinções codificadas na linguagem; as categorias e distinções codificadas em um sistema são exclusivos àquele sistema e incompatíveis aos de outros sistemas (p.162).


Utilizando essa noção de que a linguagem determina o pensamento, concebe a linguagem como território de conflito pelo poder, visto que dominar a linguagem significa dominar o pensamento; impor uma determinada linguagem significa impor um determinado pensamento; utilizar-se de uma determinada linguagem é o mesmo que utilizar esse pensamento.

Um bebê sendo cultivado




Nesta cena aparece um bebê completamente perfurado de tubos, dando a entender que toda sua energia está sendo retirada desde que nascemos. 

 Figura 1: Extração da energia humana - Matrix (1999)


 
Comparando essa imagem com a ideia de que as crianças, desde cedo adquirem, processam e produzem linguagem, podemos dizer que desde cedo estamos suscetíveis ao controle do nosso pensamento pela linguagem. Lyons (1981), no capítulo A linguagem e a mente, explica que todas as crianças normais começam a falar com mais ou menos a mesma idade e atravessam os mesmos estágios de desenvolvimento linguístico. Além disso, adverte o autor, “tal progresso é, no total, independente de inteligência e de diferenças de meio social e cultural” (Lyons, 1981, p. 188). Ao falar sobre a evolução da criança, do ponto de vista linguístico, Lyons (1981) demonstra que as crianças conseguem expor uma gramática um tanto mais pura, no sentido da lógica de funcionamento da língua. Com o tempo, elas aprendem a utilizar a língua conforme as convenções sociais vigentes. Construções como /fazi/, comuns nos primeiros anos de vida, como resultado da lógica /vender/-/vendi/, /fazer/-/fazi/, são aos poucos substituídas pelas construções gramaticalmente aceitas. Queremos enfatizar aqui a noção de que a criança nasce e começa a desenvolver a linguagem logo cedo. Essa linguagem vai aos poucos tomando os contornos necessários ao controle do pensamento.
Em determinado ponto do filme também, Neo recebe disquetes que representam as habilidades que ele irá aprender, tal habilidade será carregada no seu cérebro e o tornará pronto para agir sobre ela. Nessa cena quando carregam nele o Kong Fu, ele acorda e diz: “já sei lutar” e Morfeu o desafia: “então me mostra!” e então segue para o desafio. Nesse momento duas teorias ganham corpo se fizermos uma analogia do Kong Fu e a Linguagem, a ideia de Chomsky sobre a aquisição de linguagem acontecendo a partir de um dispositivo inato que começará a funcionar em consequência de um input por meio do uso desse conhecimento, Neo sentia que sabia, porém o uso da arte marcial fica limitado, pois só o conhecimento teórico não faz dele um lutador brilhante. Nesse caso o funcionalismo aparece quando na luta Neo não consegue usar adequadamente seu conhecimento, ou seja, na relação com o outro em um contexto ‘X’, que é imprevisível e não depende apenas dos aspectos internos, ele é derrotado. Transpondo para a questão da língua como Dillinger (1991, p. 400) esclarece o ponto de vista de Votre e Naro: “o funcionalismo se preocupa com as relações (ou funções) entre a língua como um todo e as diversas modalidades de interação social e não tanto com as características internas à língua”.